
Vou fugir um pouco do costume dos Arautos, e me dou agora ao divertimento da folga dos meus eus-poemáticos. Se existe mesmo separação entre autor e personagem, esta crônica é interpretada pela personagem da própria autora. Se é que eu mereço me chamar de autora de qualquer coisa........... (aqui várias reticências são necessárias!)
Fui a uma locadora de filmes. Queria encontrar "De Olhos bem Fechados". Só porque já assisti algumas coisas do Kubrick, e não conseguia imaginar como seria qualquer outra feita por ele que não fosse ficção científica.
Encontrei o que queria. E algo mais.
Como patética incorrigível que sou (e indecisa também!), não consigo sair desses estabelecimentos com menos do que dois ou três DVDs, ou não levo nenhum. E entre as minhas escolhas é claro que não faltaria algo de cheiro água com açúcar - isso eu não escondo.
Mas no meu caso até mesmo o que é tão meloso pode ter suas especificidades.
Por exemplo... Eu poderia ter escolhido alguma coisa que soasse como "O Amor de Nossas Vidas blá blá blá", o que não deixa de ter um pouco a ver comigo, pena já ser nota muito destacada nessa melodia semi pobre holywoodiana.
Não.
Escolhi um filme que originalmente se chama "Martian Child". Por que?
A minha queda por ficção científica? Este não é exatamente um filme de ficção científica. E, sinceramente, também não sou nenhuma fanática. Na verdade, acho que não sou fanática por nada, nem aficionada - não sou do tipo que faz coleções ou conhece até o mais obscuro ruído orgânico da vida de um ídolo. Apenas me interesso. Por muitas coisas. Algumas aparentemente imisíveis, como seres do espaço e bossa nova.
Pois que deixemos a bossa para outro momento (com todo o perdão dos conectivos inadequadamente utilizados!), e voltemos aos seres do espaço. Só porque hoje eu me sinto quase espacial!
...
http://www.newline.com/properties/martianchild.html
A palavra extra-terrestre se auto define. Aquilo que é extra, que vai além. Pois imagine só a história de uma criança que vai tão além - a ponto de achar-se a si mesma algo extra-este-mundo.
Creio que, em verdade, vez ou outra qualquer um que tenha seu mínimo de sensível pense em si mesmo como extra. E extraterrestre, ainda, se sentirmos a vida como aquela monotonia aparentemente sem sentido. Talvez eu mesma aja como o garoto de marte quando, sem vontade de pensar na loucura de todo dia, me dedico à minha própria. Nem sempre consigo dar a ela os contornos e formas dos personagens que quero. Talvez eu ainda não tenha apreendido a fantástica "técnica" de sentir o gosto das cores. Mas bater incansavelmente fotografias surpresas de qualquer coisa pode ser um hábito que eu e esse curioso protagonista tenhamos em comum.
O engraçado é que eu não sou como ele, mas ainda assim sei exatamente como é ser como ele. E isso me lembra uma melodia rock derrotada cantando "In Love With The Alien", que já foi trilha sonora de uma crônica do meu antigo blog.
Seja lá o que esse mito do alienígena signifique, e que essa capacidade alien de ir tão além da Terra a ponto de se estar sempre a trombar com ela em uma surpresa meio que libidinosa possa ter a ver com uma fuga do "id" em relação às mesquinharias do "super ego"...
Eu digo que... vale. Vale sim a pena dar-se de presente ver um filme que não seja um enredo de brutalidades (ainda que muitas vezes necessárias) desse cinema inteligente assustador. Vale até alugar um DVD cujo título em abrasilharado é "Aprendendo a Viver" (concordo, péssimo mesmo!). Porque o seu original, The Martian Child, baseado no livro homônimo de alguém como um roteirista de Startrack, é extra. Extra emocionalmente bonito. Tem suas cenas dispensáveis, claro (John Cusack vai bem como pai adotivo e escritor esquisito simpático, qualquer coisa galã... melhor deixar para lá...), mas fica no Imprescindível uma história "real", que faz até parecer adequado recorrer ao clichê:
"a arte imita a vida". -
- Só porque sem vida, não há que haver sentimento, e eu não vejo arte, por mais inteligente que seja, sem a fantástica-marciana-extra-capacidade de sentir.