Domingo, 12 de Julho de 2009

Sobre as frases de efeito que nunca inventei.


Tenho dito.

Recortei com a memória um pedaço de jornal, com uma notícia das mais bestas no meio de tanta coisa importante acontecendo por aí. Sobre uma cirurgia que põe na frente da íris uma película (?) de colorido diferente - azul ou verde, e castanho talvez para os desesperados. Aos albinos seria uma forma de anonimato da sua diferença - dar a cor inexistente íris membrana transparente. Mas vira coisa também para dondoca entediada, que invoca em esclarecer a escuridão latina do olhar (e que ironia terem de ir ao Panamá para fazer isso!).
E eu, que já fui - e ainda sou um pouco - tão cheia dos meus complexos, pensei no assunto por dois ou três minutos. Já quis ser mais magra, mais alta, ter cabelo mais liso, o nariz mais fino, a voz mais suave... Estranho que o que nunca me incomodou foi a cor do olhos.
Em território mestiço, olhar claro faz diferença (!). E que diferença seria essa? Nunca me importou saber - parece tão mais simples ter olhos castanhos, a máscara que "mudasse" isso nunca me pareceu interessante.
Ainda que eu tenha pintado o cabelo de cor diferente. Mudado esse, aquele corte, para dar-me por satisfeita só quando não parecesse igual. O mesmo cuidado, sem querer, nessa ou naquela troca de roupa. A máscara de todo dia de manhã, ao levantar da cama e escolher como apresentar-se ao mundo em códigos vestuários. Uma puta futilidade.
Pois puta futilidade, mesmo, acho que é querer esconder a cor do olhar. Mas também eu não me escondo no meu ritual de disfarçar-me de mim mesma toda manhã.
Se meu pijama velho me levasse a passear todo dia, sem escovar os cabelos, será que um 'eu' mais genuíno, mas ainda assim diferente de mim, é que sairia andando por aí? Fico pensando nos índios que dormem e passam o dia dia pelados. O tempo de brincadeiras e de de plantar ('trabalho') é o mesmo, e a mesma indumentária: nenhuma! As plumas às festas, é verdade. Mas o tempo de todo dia não vive assim, tão entrecortado.Não existe o tempo de descansar a na liberdade do pijama e o de alisar o cabelo sarará e torturar os pés com sapatos desconfortáveis. Gravata então? Só podia mesmo ser aberração.

E mudar a cor dos olhos...

...

Mas qual a diferença entre eu que escondo minha roupa de dormir e a dondoca que esconde o colorido dos olhos? Não é tudo uma questão de disfarce?

Vai ver não é não (vamos lá, quero fazer fé que não). Ela preferia ter a íris azul, talvez achando que veria tudo nessa cor. E eu, eu não minto a minha farsa, apenas represente - o que todo mundo sabe que não é verdade, ainda que seja genuíno exercício da profissão de mim mesma. Sou minha futilidade no meu teatro de todo, não escondo a minha nudez de gente - comum.

Quero me convencer de que existe uma diferença. Ainda não me parece que o meu teatro seja mais 'legítimo'.

(pausa para questionamento interno silencioso...... ZzZzZz...)

Não, não estou conseguindo e encontro então um bom motivo para ser fujona. Encerro essa crônica, já que encontrei uma pergunta sem resposta, e mais um clichê para a minha infame lista das frases de efeito que nunca inventei.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O dia de depois

Um dia novo que se amanhece,
Um dia depois que a gente se conhece,
Um vazio que toma o meu peito,
O pensamento de nada ter feito.

Ah, como seria bom se já soubesse
qu'isso que me cala e me entristece
é vazio dos meus lábios sem teus seios,
é desejo que sei e o que não sei.

Mas quem sente nunca fala,
Pois sentimento tem só alma.
Alma que fala em poesia,

Música, arte, toda a minha heresia.
Escrevo porque me acalma
Minh'alma que sem fala se cala.

XIII

Meus olhos maiúsculos não te vêem mais.
É tempo de cólera no amor e na amizade.
Meus ouvidos já não têm mais a sua voz...

Voz de cantiga sussurrada
Que me deixava toda suada...
Não existe paz.

É tempo de puro desalento,
E o mundo gira muito mais lento.
Todo o dia parece como noite.
Toda noite soa infinita

-Porque a gente nunca fica.

Ficamos há algumas quadras de distância,
Mas nada mais tem relevância.
"Sino el miedo", a tristeza abafada,
O ressentimento e o orgulho.

-É uma amizade que não parece tão pesada,
Mas merecia a pitada de um mergulho.

Um mergulho no oceano da coragem
Que ceifasse entre nós a dissonância,
E quiçá estes fatos parnaseanos.
Chega de tanta redundância!

O tempo nunca muda;
Os homens nunca mudaram;
O mundo é sempre o mesmo.
Contudo, tudo parece mudo...

-Agora, que já não há mais nós.

Todavia, nós, nunca existimos.
Jamais, juntos, desatamos os nós.
E após meses nos descobrimos sós.

-É vazio e branco todo o nosso imo.

E agora, Fulano?
O que fazer agora que o ponteiro
do relógio já não marca mais a hora?

É doída Fulana?
Como levar essa vida dorida e arrasada
Se já não mais pode ser tão fingida?

Dizem que tudo que tem começo
Um dia há de ter fim.
Dizem também, que todo amor
Deve ser vivido até o fim...

Mas onde está o começo disso em mim?
Como pode ser assim,
Se nunca houve amor além de muita dor?
Se nunca houve dor além de muito gim?

Se nunca houve nada,
Há de haver um dia?
Há de haver alegria?
Ou serei sempre afastada?

E a pergunta que fica
é "quem jogou tudo fora?"
Mas agora não é hora
pra metafísica.

Digo:

"Jamais se conhece um animal
que vive fora de seu 'habitát'.
E me desculpe se agi mal.
Mas por favor, não me maltrate."

A vida é assim mesmo: aleija.
A boca que te sorri
Nem sempre é a que te beija.
Erro que cometi...(ou não).

Mas as estações não mudaram por isso.
A primavera continua a dar flores.
E outros amores virão. Abra um sorriso
E caminhe. E onde quer que fores
Não carregue o siso dos amores.

"C'est la vie".
Dura, sofrida, muda
E imunda.
Mas aprecie,
Só temos uma.

E de que adianda um poema?
E de que adianta uma canção?
E de que adianta um amigo?

E pra quê serve o dia ou a noite
Se não podemos voar como o boita?
E pra quê serviria voar?

Ame, e tudo fará sentido.
Goze, e não será fingido.
Mas lembre-se que amores vem e vão
E nestes voos, não perca o coração.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Canção do Exílio

Minha escrita é filha biológica da tristeza.
Pensei em escrever. Precisei escrever. Vivo num Rio de Janeiro frio. Longe de minha terra e de meus amores. Exilado, pensei escrever. Precisei escrever. Mas já tudo estava escrito.
Segue o silêncio obediente de admiração.


Canção do exílio

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite
-Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Dando (e tirando) as caras e os tapas e as caras aos tapas!

Este blog ainda existe. Não é uma construção abandonada, ou um prédio antigo esquecido. Da minha parte (e aposto todas as minhas felizes figurinhas que o mesmo vale para os também desaparecidos Dom Diogo e Beteto), falta tempo, não vontade. A bem da verdade, falta tempo para mim mesma, porque não consigo mais fazer uma das coisas de que mais gosto: escrever! Gosto não é sinônimo e êxito, e é essa a razão do meu sumiço.

Quando falei da parafernalha política desse mundo de meu deus (e sabe-se lá que deus é esse!)em janeiro, disse que esse ano parecia começar pelo fim. Mal imaginava eu que seria assim também naquilo que dizia respeito a mim. Estamos prestes a pendurar as bandeirinhas coloridas de junho, e ainda estou com a ressaca do ano novo. E o pior é que a festa nem foi tão boa assim.

Mas não interessa aqui que eu diga que muito do que se passou entre os números do calendário dos últimos meses foi o oposto ao que eu chamaria de festa. Resumo tudo em uma palavra que não me compromete demais: Amadurecimento. Capaz de despir todas as minhas auto ironias - todas, mas não totalmente, já que aqui é justamente o lugar dela.

Isso, às vezes. Há momento para compartilhar alguns sentimentos que me parecem bonitos. (Poesia? - pelo menos tentada). Algo que não seja segredo meu e só meu. Afinal, não é porque muita gente repetiu Pessoa que não me posso atrever a repeti-lo também (bons versos sempre caem bem!):

"O Poeta é um fingidor"

... o resto vocês sabem, não?

Eu não sei se sou poeta, mas também gosto de fingir. Então, vamos lá:

I (Sorrir....)

Não me espera,
não!
lá me vou
- três tanques de guerra
o grito -
eu peço:
Não me espera!

Amanhã
flores de dou
ao reu despertar
queres sol?
que não me estenda
a tua janela
entenda
- que te dou abraço
e me vou!

Mas não me esmpresta
furados teus
os sapatos que
não!
Não devolvo caminhos
(como, se não os tenho?).


Te converso
comigo somos
concreto e sal
afirmo em falta
tão próximas as ladeiras.

Mas não!
Não me empurra!
que esperar também...
melhor não
é soltar pipas.

Dorme!
E não me conta
absurdo teu!
- porque em outra
linha sonho
ainda com o meu.

II

Querer-te
pra mim
egoísmo
de abraço
ter-te por todo
enquanto eu
fizer-me da
tua ânsia
parte.

Abraçar-te
antes
que te vás
já será
tempo pequeno
para ficares.

Permaneço
em antecipar
tua ausência logo
que partindo


eu vi pássaros azuis.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

...




Quente a tua mão
na minha
o teu tempo
enlaçado ao meu.

Dividir dos mesmos
olhos
o mesmo sentir.

Ah, que vontade
do abraço
que não haverá
mais
ficarem cintilantes
as recordações
da voz o
doce entornar
das palavras assoprar
otimismo
escapa
dos olhos
lágrima.

Distante
a tua mão

da minha
semelhança
tocar o mundo
com dedos que
atentam aos tons
verdes de ser.

Dedos que não
cabem
à despedida
ainda que
se afeiçoem
na tua ausência
essas

Saudades de Abril.






"O inevitável dá as caras de vez em quando. E a gente não tem como deixar de lamentar que seja assim - a humanidade pesa com o tempo. Ninguém descobriu ainda qual seria essa fuga que muita gente deseja desde sempre, e que eu desejaria ter agora (se ela fosse possível): Sendo assim, pois que se aceite assim.
Tudo bem:
Alguma coisa me diz que não é isso o que importa: o limite carnal do tempo não pode restringir a poesia que transcende pela alma."




- Para o meu avô, Fioravante Sarti, o 'Vô Fiore'. Quem teve a sorte de conhecê-lo sabe, um Iluminado: sempre!

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Conversão

Dona Ana toma seu terceiro comprimido pela noite. Tira o pirex de cima do copo de requeijão em que repousa fresca água. Bebe três pausados goles. O líquido desce áspero, a traquéia protesta - três vezes dá dos seus trancos.
Respira – Ah! - e enxuga dos olhos cheios de remela a última lágrima do dia.
Tateia pelo controle remoto que está sobre o criado mudo. Toma cuidado para não derrubar o copo, o pirex e os tercinhos de madripérola que sua prima antipática trouxe de Fátima. Encontra-o, sentindo os dedos cansados grudarem na cola do velho durex colocado há meses para segurar as pilhas no seu devido lugar.
Faz três vezes o sinal da cruz.
- Que Nossa Senhora rogue por todos, e que Deus ilumine os pecadores.
Amém. -
Mais três vezes o sinal da cruz.
E o seu corpo gordo roda de um lado para o outro na velha cama de casal, em que só ela se deitava já há tempos.

- Será que alguém deu comida para o coitado do Fredi?

Fica imaginando o pobre do viralata, com a carinha focinhuda sobre as patinhas encardidas, o bigodinho cheio de terra, e aqueles enormes olhos de gente sozinha. Ah, mas que absurdo chamar cachorro de gente!
Estava bem magrinho, era verdade. Mas também não morreria de fome.
E depois... Se fosse levantar para dar comida ao coitadinho, será que teria de rezar de novo? Isso nunca tinha acontecido. Imaginava só o que diria o seu confessor se soubesse que ela, uma senhora tão católica, tinha ido dormir sem fazer a oração. Nem percebe, mas faz novamente o sinal da cruz.
Talvez devesse levantar-se, dar comida ao coitado do animal, e então rezar novamente. Se fosse alimentar o animal e rezasse de novo... Ah, isso seria porque sua primeira oração da noite não tivera muito de fé.
(Ai, ela bem se lembrava de quando aquele padre charmoso do cabelo com rinsagem acaju fez um sermão digno de profeta, e disse claramente só os infiéis é que rezam sem fé.)
Rolou de novo na cama.
- Ai, como fazia calor!
- Ai, coitadinho do Frédi!
Mas, com ele, ela logo se entendia. Daria-lhe uns nacos de uma carne velha esquecida no refrigerador e pediria que a preguiçosa da empregada o levasse para passear. Com Deus é que ela não sabia como podia ser. Pois o cachorrinho, fosse como fosse, estava sempre ali, com seus grandes olhos, suas patas encardidas e o rabinho abanando, implorando por carinho, enquanto ela fazia pouco caso dele enquanto assistia aos chatíssimos programas de TV que se arrastavam por tarde intermináveis - Ai, como era difícil essa vida de viúva aposentada!
Mas Deus...não tinha jeito de saber se Ele a ouvia: nunca tinha parado para pensar nisso. Muito provavelmente, ele teria mais o que fazer do que ouvir as baboseiras de uma velha chata e sozinha.

Verdade que ela nem sempre fora assim.

Era uma moça bonita - olhos verdes, pele morena, e uma cinturinha muito fina, que os rapazes gostavam de tocar enquanto ela fingia nem perceber. Adorava dançar: tinha sapatos de tiras lilases que giravam pelo salão enquanto um sorriso explodia pela face limpa de culpas ou afãs esquecidos. Era menina fazia o que desejava. Deixava-se levar pelos rapazes para trocar beijos a trás da Igreja e não escondia a maior das caras feias quando a mãe lhe torrava a paciência para que se arrumasse logo – já era hora da missa!
Enquanto o padre partia a óstia no altar, trocava comentários venenosos com a amiga que sempre a acompanhava, e que fazia pouco caso das aventuras dela, não deixando, porém, de encontrar graça nos seus relatos. Era essa a amiga que lhe emprestava os romances que mamãe não a deixava ler, e que lhe relatou pela primeira vez como era bom beijar um moço bonito. Foi ela também que lhe fez cara feia quando logo lhe contou que pensava em se casar com aquele rapaz do sobrado em frente à praça.
- Credo, Ana. Ele nem é tão bonito, e tem a cabeça do tamanho de um alfinete.
E a Anoca respondeu que ele ganhava tanto e tanto, e que o pai tinha tal e tal fazenda assim e assado.
- Credo, Ana. Mas é uma família mais carola que a sua.
E a Anoca respondeu que dava um jeito no marido, e se jeito não tivesse, ela fazia de noite o que bem entendesse, e ele que de dia acreditasse dormir com uma tontinha.
A amiga censurou-a ainda mais. Não houve o que tirasse de sua cabeça que deveria casar-se com aquele moço tão rico, mas tão vazio de si.
Era da família dona da cidade, e lhe daria os mais bonitos vestidos – para matar de inveja as maricotinhas que torciam o nariz para as costuras da mamãe.
No dia do casamento, chorou de soluçar. Perguntaram-lhe se estava triste. Ela respondeu que era a alegria de ver seu sonho realizado – enquanto a traquéia três vezes protestou, traindo-a com tons de profeta.
Dessa vez, mamãe é que pediu que não se apressa-se. Fez questão de ela mesma ajeitar a mantilha da bisavó sobre o rosto emocionado da filha.
A Anoca mal teve coragem de beijar o marido fulano de tal ao fim da cerimônia. Forçou-se a não olhar para o namorado de poucos meses, que já então era antigo. Vestia sapatos de um branco puro - que amordaçavam seus pés, ainda tão cheios de vontade de dançar.
Foi boa mulher. Lavou, passou, engomou e chorou. Deixava que o marido se deitasse sobre ela sempre que quisesse. Perdeu a coragem de sentir prazer no dia em que ele lhe perguntou porque ela gemera como uma vagabunda. A indiferença vestiu-se em asco. Os sapatos brancos passaram a massacrar seus joanetes.
Um dia teve um amante. Não podia mais rodar nos salões com seus calçados de tiras lilases, mas não temia pintar a boca de carmim. Quando lhe perguntavam o porquê da nova cor, respondia que era a alegria de ser mãe.
O marido não acreditou. Mas, também, pouco lhe importava. Só não pôde ficar quieto quando deu com o namorado da sua honrada esposa passando pela rua de sua casa. Disse duas palavras, talvez três, e o safado nunca mais apareceu. Ao entrar, presenteou a mulher com um tabefe, e pediu que ela mesma lhe esquentasse a janta.
O tapa doeu – “como uma vagabunda” - Tanto que ela precisava contar a alguém. Mas não havia mais amigas de ouvidos livres para entende-la. Mamãe diria, talvez, que o marido estava certo. Pensou até em confessar-se. Ah, nunca se confessava mesmo. Será que se arrependia?
- Então por que o tapa continuava a doer? (“vagabunda!”)
- E se contasse – tudo – ela mesma para Deus?

Foi mais fácil. Ele a ouvia em silêncio. Mais um pai nosso - e a ausência de palavras que a reconfortava. Depois ficou fácil dizer tudo aos sacerdotes, ao ‘falar’ servilmente com Quem Tudo Pode sentia-se pura, digna dos sapatos brancos que calçava. E, tão pura, não perdeu mais nenhuma missa. Viu os filhos crescerem sem que se esquecesse de lhes dizer que não se atrasassem para a Igreja.

Amém.

E Dona Ana rola e rola sua corpulência sobre uma cama de viúva. Como saber se Deus poderia escutá-la? Ah, melhor que ela não o contrariasse! O Fredi, ele vai ficar feliz com um pedaço de carne amanhã. Carne: ele não pede nada além disso! Ele nunca lhe deu um tapa!

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Conflito da razão desmedida

Nós não podemos ser um.
Se formos, nós não seremos mais.
Se disse que nada disse,
Mentiu:
Nada você não disse!
Melhor, pois, não te dar ouvidos.
Se desse, surdo ficaria.

E raios que o partam! (literalmente?)

Domingo, 8 de Março de 2009

Tu não te suportas

Onde não foste
tão possível ires
pistas de flores
não bordaste 
em teu quintal.

Tão logo te fizeste
da carne metal
tão logo não te farias
margaridas
desta tua alma estreita.

Te fazes feliz
- pensa nas nuvens
que não existem
nos céus que não podem 
ser
já não mais
partiste em rumo
-foi-se pedaço de ti.

E ainda que vida
em pântano
choraria riso
forçado de roseira.

(Mas a tua náusea
ela o chama,
provoca,
chinga:

Boçal!)


Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Minha Estrela


Fotografia de Belém Neto - 05/2008.


Música e letra por "Beteto & Diego Nyko"

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Quem eu não sou, feliz é

Quem eu não sou, feliz é.
Quem tu és, jamais serei,
Pois contenta-te com fé,
Isto que eu jamais terei.

Se caminho só, alfim
É porque não tenho calma.
E a alma que tu vês em mim
É mais uma que não me acalma.

Pois sou nada do que sou,
E tudo que em mim existe
Não foi Ele quem me fadou,
E ainda sim não vivo triste.

Só consiste em viver só
Do mundo de toda a gente.
Onde quem sente tem dó
Sentimento em mim ausente.

Não sou nada do que sinto,
Pois nada sinto além disso:
Que sou o que minto
E minto o que pressinto.

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

JANEIRO DE 2009

Este é um começo de ano que já começa turbulento, com cara de fim. Tenho pensado bastante nisso.

Tanto que até escrevi algumas crônicas sobre as atrocidades da desumana estupidez impregnada no confronto 'Israel versus Palestina'. Uma delas era até 'postável', se não estivesse agora perdida no meu pobre micro - que já amarga mais de vinte dias, esperando serem resolvidas pendengas do seguro residencial, para ser concertado. 

...

Enquanto bombas explodiam no oriente médio - quase em uníssono com fogos de artifício ocidentais desejosos por um 'feliz' ano novo - continuava a loucura (ainda maior!) dos mercados. Assim, como um 'presente' de dia de reis (e, aliás, quem governa essa balburdia?), milhares de sobrinhos do Uncle Sam levaram digníssimos pés na bunda, e foram para a fila do seguro desemprego (o que, aliás, está começando a acontecer por aqui: pois é, né, quem disse que o Brasil ia escapar dessa mesmo?).

E, no meio desta tremenda bagunça, a 'América' DELES surpreende o mundo com a imagem, cheia de esperança, de seu primeiro presidente negro (?), e ainda por cima filho de um muçulmano.

O que esperar disso tudo? Gostaria muito de dizer 'o melhor'. Infelizmente, qualquer pessoa sã não diria essas palavras. A barbárie em Israel parece querer por fim a si mesma - mesmo com todas as aparentes 'tréguas' - apenas quando irmãos semitas, judeus e muçulmanos, estiverem cara a cara no dia do Juízo Final (e como tal evento ainda não tem data marcada, e sequer foi mesmo 'confirmado'.................). 

A loucura (ainda maior) dos mercados parece estar apenas começando - e se esta já não fosse uma metáfora bem manjada, clichê mesmo, eu diria que a pobre Alice está apenas começando a perceber em que 'Maravilhoso' país foi se meter.

E o Obama? 
Ele me parece simpático. Falou em responsabilidade da América (DELES!), mas também não disse nada em deixar essa história de hegemonia pra lá (se bem que com toda essa confusão financeira, talvez nem precise...). Repetiu várias vezes que deseja que no seu país haja oportunidades iguais para todos - e mesmo sem grandes malabarismos de oratória, essa parte do seu discurso de posse me tocou. 

Ao menos ele tomou providências para fechar a tão famosa prisão de Guantanamo, algo que era de se esperar para a mínima coerência de um antigo advogado de direitos humanos. 

Uma esperança?

Bem... Sensato ou não, idealista ou não, politiqueiro ou estadista, não vai fazer grande diferença. Mesmo que Obama seja tudo o que aparenta ser, ele apenas é uma pessoa - que, francamente, soube vender de maneira magistral uma imagem de mudança em tempos tão incertos para nossos hermanitos lá de cima... 

Apenas uma pessoa - enquanto toda a engrenagem, ainda que capenga, continua a funcionar.

...

E assim vai terminando o primeiro mês de um ano que, muito provavelmente, ainda trará explosivas surpresas. Aguardemos!

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Obama de barraca armada no Planlto Central!

Parece piada, mas Barack HUSSEIN Obama não vai ter que lidar com Saddam HUSSEIN graças ao Bush! Porém pode sobrar para ele e seu vice Joe Bi(nla)den resolver a questão do Obama.. ups! Do Osama!

Mas pelo que ele demostra, fará igualzinho o Lula, vai tratar todo mundo como companheiro - como fez hoje com Bush em seu discurso de posse - e a esperança vai vencer o medo, ou como ele mesmo disse: "nós escolhemos a esperança sobre o medo". Afinal, observem os discursos dele, não foi nem Hussein nem Laden quem o ensinou, Obama armou a barraca foi no Planalto Central! Aprendeu a discursar com o Lula! Ou alguém tem dúvida disso?

Ou seja, ajeitem-se em suas poltronas, pois esse caminho nós brasileiros já conhecemos bem. Quem tem esperança, espera! C'est la vie! E viva Lula e Obama juntos no PC! Mas sem comunismo, apesar da foice...

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Pouco seria se eu te beijasse inteira

Pouco seria se eu te beijasse inteira,
Pouco seria se eu te amasse demais,
Pois cada vento que sopra me cheira
A eternidade só nossa e de ninguém mais...

E cada vez que eu te vejo na beira
Dessa estrada que deixamos pra trás,
Nada penso de além que tu me queiras
Como o homem dos teus sonhos e de ninguém mais...

E assim, a minha volta encarna o teu desejo,
Ilha sepulcra de tudo o que tenho feito,
Medo onusto que entoa todo o meu latejo,

Desfigura nossa alma por dentro do peito,
Não só meu, mas também teu, quando não te vejo
Lá, no enlaço dos meus braços em nosso leito.

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Um pouco de sonhos...


"Sandman: Eu agradeço. Os reis do inferno são honrados. Me lembrarei disso.

Lúcifer: Honrados? Você zomba, claro? Olhe ao seu redor, Morpheus.
Os milhões de Senhores do Inferno o cercam. Diga-nos por que devemos deixá-lo partir.
Com elmo ou não, você não tem poder aqui... que força tem os sonhos no inferno?

Sandman: Você diz que não tenho poder? Talvez fale a verdade... Mas... dizer que SONHOS não tem poder aqui? Me diga, Lúcifer... Perguntem todos vocês... Que poder teria o inferno se os que aqui aprisionados não fossem capazes de SONHAR com o PARAÍSO?"


Neil Gaiman in "Sandman: Prelúdios e Noturnos", Vol.1. Pixel Editora, 2008.

Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Some English Gibrish


De Rômulo B. Victor, um grande amigo
.

Garamond he chooses to write. Those letters really come out right. He wakes up in the middle of the night. She says "please lie down and turn off that light".

Senseless words form a senseless man. The incredulous one still believes he can. And he keeps trying over and over again. And no one bets in the work of Old Stan.

He tries a poem and he tries a novel. The wife throws him the shovel. He finds all this disbelief absolutely awful. His wife only cares for the hovel.

He tries hellos and he tries goodbyes. He tries pineapples and apple pies. He tries croissants and marble ryes. Yet, all he gets from her is some "nice tries".

Actually, senseless words form a dreaming man.


Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Brincando de odiar

Assim como o mar
guarda em si tanto sal,
guardarei dentro de mim
todo o seu mal.
.
..
...
Mas nada do que sinto
perdura ao absinto...

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Sobre um tipo genuíno de libertação*

Sempre tive uma mistura de medo e aversão às críticas literárias. Detesto moralismos de escrita, ou regras sobre escrever 'bem' - como se fosse possível qualificar todas as espécies do sentir humano. Só que meu orgulho, às vezes, me faz ter vontade de vestir certas idéias com feições de argumentos de autoridade: porque em uma ou outra hora me cansa ser sozinha nas minhas opiniões. Inclusive naquelas sobre uma das coisas de que mais gosto: boa literatura!
Às vezes sou leitora compulsiva. Se não tenho o que fazer, arranjo, e um bom romance já me dá muito o que imaginar. De vez em quando, repito algum que me tenha marcado - e é bom que se diga que nunca! é a mesma coisa.

No final do ano passado revisitei o Admirável Mundo Novo, de um tal Sir Huxley. Vi novamente um futuro em que pessoas são divididas em castas determinadas por genes de 
beleza, saúde, inteligência, ou de uma inferioridade sem vigor ou brilhantismos de raciocínio. Dos alfa aos ipsilones, uma coisa permanece a mesma: o pensamento se confina a uma série de frases em gravações repetidas durante um sono sem ambições. 
Querer mais que isso!? Que Ford perdoe os hereges!
E entre essas frases prontas, seres sem identidade respiram coerção - rumo à promiscuidade, literalmente... 
Sim, coerção, porque aquele incapaz de ser promíscuo, em tão 'admirável' lugar, é o imoral (algo bastante parecido com certos ransos de machismo tupiniquim, não?).
Impossível percorrer a história sem sentir a crítica de Huxley a esse mundo de promiscuidades. Seria então, ele mesmo!, puritano? A biografia do autor responde claramente: não! (e haja cocaína para enfatizar essa negação!).
Se essa resposta é uma negativa, qual seria, portanto, a explicação para tal crítica?

Não sei se Huxley leu Hesse. Mas eu li, e achei a respota. Não uma resposta correta, mas a minha resposta! - em uma edição de O Lobo da Estepe (que me caiu perfeitamente depois de reler a utopia às avessas de um tal lorde).

Harry Haller sentia-se meio burguês, doméstica, moral, intelectual e comodamente burguês, meio Lobo da Estepe: animal solitário, furtivo, desconfiado, inimigo declarado de tudo o que mais amava a sua outra parte acomodada. E a solução para alguém encurralado entre ser uma coisa, e ao mesmo tempo o seu perfeito oposto, nada mais poderia ser que entender que, se o ser humano pudesse ser dividido entre suas muitas partes, certamente o número de seus pedaços seria algo muito maior - e muito mais fantasticamente complexo - do que... dois!
E porque se precisava dar voz ao que têm de mais sincero em si, foi bom que o Lobo saísse de sua posição de recato e se apresentasse a si mesmo como alguém capaz, promiscuamente capaz, de rir.

Pode muito bem parecer existir toda discordância entre Huxley e Hesse. Crítica em um se lança á promiscuidade, em outro, ao puritanismo. A questão, porém, não está no que é melhor, mas no que não é sincero.
Em Admirável momento, tinham o oposto da adimiração os que se apaixonassem, assim como também os que questionassem, que se mostrassem inquietos, que tivessem vontade de gritar todo o descontentamento: que não poderia ser calado por um grama de soma. 
E o Lobo acreditava ter de se amordaçar manso, amordaçado em silêncio - ou cruelmente ácido, mesmo quando se admirasse sua vista com a delicadeza sem propósito de um vazo de pinheiros ao pé de uma porta simples.
Que o superficial não engane. Hesse e Huxley conversam em suaves vibrações de entrelinhas, que depois de percebidas se traduzem em uma agradável melodia. Limitar-se ao puritanismo de dividir a alma em duas, ou negá-la, fazendo da identidade um conjunto de crenças que são apenas frases repetidas inconscientemente é prisão! Moralismo que acorrenta o ser que por dentro quer sentir-se liberto. Devassidão que não respeita a vontade de um nostálgico suspiro...

...

E chego à conclusão de que bem, muito bem, encontro entre animais furtivos e mundos nem tão novos assim um pouco do meu próprio ver e sentir isso que costumam chamar 'moralidade':

Imoral é o que nos impõe outros - burgueses ou lobos, ou gramas de uma droga que finge tragar tudo o que for tristeza.

E não entendo o que pode haver de imoralidade no que for traço sincero de alma em expressão: simples exercício de um viver autêntico.

Gostaria de apresentar aos carolas a maravilha de um Grande Teatro, cheio de magia libertadora - em que cada um faz de si a sua própria vontade. E gostaria também de esfregar às fuças dos libertinos o sentimento de vazio que tantas vezes paira na Admirável solidão de tantos corpos juntos - sem que haja tempo para serem apresentadas umas às outras as almas.

Talvez eu seja mesmo gente de alma autoritária, ao menos com quem, também autoritariamente, relata os feitos alheios com vozes de censura. Mas para fazer impor esse meu horizonte de uma liberdade autêntica (a sinceridade de agir conforme o próprio sentir), eu cairia em contradição - o que não posso fazer: já assumi o compromisso de ser sincera comigo mesma.



*Depois de reler este texto (algumas vezes), percebi que certos pontos dele me cansavam. Não pelo que expresso em idéias, mas porque talvez a linguagem estivesse ela mesma muito presa para fazer juz ao que eu queria dizer. Só por essa coisa minha de querer também neste ponto ter alguma autenticidade, resolvi mecher aqui e ali - e não escrever como se fizesse uma tese pseudo-acadêmica (merda de praga, que costuma pegar muito bem em pretensos - e pretenciosos! - estudantes de direito!).  Assim, a última versão (essa que você acabou de ter a paciência de ler), foi (re)editada em 05 de dezembro de 2008.

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Luz Fantástica

"No Discworld, Morte era um tradicionalista que se orgulhava de seu trabalho e passava a maior parte do tempo em depressão, por não ser valorizado. Ele chamava atenção para o fato de ninguém temer a própria morte – mas a dor, a separação e o esquecimento – e dizia que não era justo atacar alguém apenas porque tinha órbitas vazias e um prazer secreto em realizar seu serviço. Também argumentava que ainda usava a foice, enquanto mortes de outros mundos já haviam investido em máquinas de ceifar".

A LUZ FANTÁSTICA, (pág. 103)
Terry Pratchett
Conrad Editora

Sábado, 4 de Outubro de 2008

Considerações sobre a cidade ad hoc

O sotaque vazio
É o maior dos milhões
Baldios transeuntes:
Os terrenos.

Beleza não há,
Nem orgulho pra ter
De viver monossílabo,
Todos pretos ou brancos.

Já o rio falecido deixou
A chuva viúva que segue
Chorando sobre muitos
Noés sem arcas.

As artérias caóticas,
No muito, entupidas,
Convulsivamente
Enfartam.

E em dias de abundantes
Horas de menos
É impossível ser feliz
Sob um céu sem estrelas.